Poderá o futuro do rádio nos carros estar em risco? Alguns eurodeputados temem que sim, perante a digitalização crescente dos automóveis.
E escreveram recentemente uma carta à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen – a propósito da proposta da Lei das Redes Digitais. Nela, defendem a obrigatoriedade da inclusão de um recetor de rádio em todos os novos carros comercializados na União Europeia.
As tecnologias digitais a bordo dos automóveis são cada vez mais abundantes, com sistemas de infoentretenimento avançados que oferecem múltiplas opções de ‘streaming’ de áudio aos ocupantes dos veículos – inclusive através da ligação de smartphones aos veículos.
E, em alguns casos, os rádios tradicionais – que há décadas fazem parte do automóvel – estão a ser deixados de lado. Em especial quando se tratam de fabricantes de carros elétricos.
Um exemplo chega da Tesla: em outubro passado, a Fox noticiou que o construtor liderado por Elon Musk irá deixar de oferecer rádio FM e AM nos seus veículos mais acessíveis já este ano.
Rádios em todos os carros para a UE?
A missiva, publicada no site da Associação Europeia de Rádios, considera que esta proposta deveria obrigar à inclusão de recetores de rádio “em todos os novos veículos” comercializados na União Europeia, para além de garantir que os serviços de rádio licenciados devem ser encontrados e acedidos de forma fácil – com uma interface “livre e proeminente”. Também entendem os subscritores da carta que a Lei das Redes Digitais deve garantir o nivelamento competitivo entre as rádios e as plataformas de áudio globais.
“Questão de segurança, confiança e resiliência democrática”
O eurodeputado português Hélder Sousa Silva subscreveu a carta e publicou nas suas redes sociais: “O rádio deve continuar a ser fácil de encontrar e diretamente acessível e conectado nos carros do futuro“.
Defendeu o também antigo deputado da Assembleia da República que “a rádio é um dos meios de comunicação mais fiáveis da Europa”, tal como um “canal gratuito, resiliente e fiável” para situações de “crise ou emergência” – que pode “chegar às pessoas mesmo quando outras redes falham”. Hélder Sousa Silva deu o exemplo do apagão ibérico de 28 de abril de 2025.
E deixou uma consideração acerca de segurança rodoviária: “Os condutores não devem ter de percorrer menus de aplicações ou listas de reprodução enquanto conduzem. Precisam de acesso instantâneo, acedendo com um único toque a informações, entretenimento e notícias sobre trânsito”.
O também ex-autarca de Mafra sublinhou ainda: “Manter a rádio facilmente acessível nos automóveis é uma questão de segurança, confiança e resiliência democrática na era digital”.
“‘Lobbying’ contra o rádio”
Um dos eurodeputados que se juntou a Hélder Sousa Silva é o irlandês Barry Andrews, que numa coluna no The Journal alertou para o ‘lobbying’ contra o auto-rádio: “O adorado, fiável e gratuito rádio no carro está em perigo. Os novos construtores de carros elétricos, como a Tesla, por vezes não os incluem de série, preferindo acordos com as gigantes tecnológicas globais para reprodução de conteúdo diretamente no carro. Estão a gastar muito dinheiro em ‘lobbying’ contra o rádio nos EUA, por exemplo, o que será repetido na Europa“.
O parlamentar da Irlanda vê os sistemas de rádio digital com bons olhos, reconhecendo a inevitabilidade do digital nos carros do futuro. Mas com uma ressalva: “Os fabricantes automóveis devem manter o rádio como uma opção acessível proeminente nos painéis dos carros, seja num ecrã digital ou um botão, e não enterrado num amontoado de canais de áudio digital globais”.
Tal como Hélder Sousa Silva, Barry Andrews considera que “o rádio é uma ferramenta de segurança crítica durante crises e emergências”. E alertou para um outro risco: “Sem salvaguardas reguladoras claras da União Europeia, plataformas tecnológicas globais, por vezes americanas e chinesas, podem tornar-se ‘gatekeepers’ do conteúdo de rádio nos nossos carros”.
E o irlandês teme: “Se perdermos o auto rádio como configuração normal, seria desastroso para o futuro da rádio pública e comercial“, disse ao podcast Newstalk.
O que diz a Associação Europeia de Rádios?
A Associação Europeia de Rádios (AER) também se posiciona sobre o assunto. Considera que “todos os novos veículos das classes M e N colocados no mercado europeu devem estar equipados com recetores de rádio de capacidade híbrida que apoiem FM, DAB+ e IP”. A entidade também pretende que os rádios a bordo sejam facilmente acessíveis.
Numa nota, cita um estudo da WorldDAB e Edison Research, que sugere que 91 por cento dos compradores recentes e potenciais compradores entendem que “ter rádio FM ou DAB/DAB+ no seu carro atual ou seguinte é importante”.
Também indica que “80 por cento dos compradores de carros disseram que seria menos provável comprarem um carro sem rádio”. De facto, a rádio – salienta a AER – é vista como “a fonte de media mais fiável da UE há mais de uma década, de acordo com os inquéritos Eurobarómetro”.
Fala também da importância vital do acesso à rádio em situações de emergência, já que as redes FM e DAB+ têm mais cobertura do que as redes móveis.
