Os automóveis têm vindo a ganhar cada vez mais tecnologia de bordo. Ecrãs táteis centrais são, hoje, muito comuns e aumentam de tamanho, fornecendo o acesso a diversas funções.
E isso pode comprometer a segurança da condução, devido à usabilidade da interface humano-máquina que, por vezes, deixa a desejar – originando distrações daquilo que é essencial: a condução e a estrada.
Nos ecrãs, é possível controlar diversos sistemas, como a navegação ou a climatização, mas também o entretenimento multimédia. E até é possível, muitas vezes, espelhar o telemóvel – sendo que até já há modelos sem botões físicos para ajustes básicos como os espelhos retrovisores e até a climatização.
Euro NCAP aperta avaliação
A Euro NCAP, instituição de referência na avaliação da segurança dos automóveis, passa a aferir este ano novos aspetos, como a existência de botões físicos para funcionalidades mais comuns. Passam a ser considerados os sistemas de infoentretenimento e de climatização.
As regras apertam para o tipo de controlos que existem, com avaliações desfavoráveis quando só existem metodologias táteis digitais. Também há requisitos mais rigorosos no formato, área e identificação desses controlos ou relativamente à monitorização da atenção do condutor. Por exemplo, para obter a classificação de segurança máxima, terão de haver soluções analógicas e digitais para determinadas funcionalidades.
Situação agravou-se desde 2022
Mas o ADAC – o maior clube automóvel na Europa – deixa o alerta. Realizou um teste que concluiu que “as funções de pesquisa nos menus e submenus digitais levam, por vezes, a períodos de distração da estrada perigosamente longos“.
As conclusões remontam a 2022 e, mais de três anos depois, o clube sublinha que a situação até se agravou em novos modelos, que “são ainda mais difíceis de usar”. Em 2025, a pontuação média de usabilidade num teste feito a 100 veículos por ano foi de 2,7 – piorando gradualmente desde 2019.
Aponta a entidade alemã para funções em demasia e disseminadas, tal como áreas táteis muito pequenas e tempos de resposta lentos. A aprendizagem após atualizações over-the-air pode também ser problemática, requerendo ao condutor tirar os olhos da estrada. E os reflexos nos ecrãs são outro aspeto.
Na prática, os ecrãs centrais são como que tablets que fazem parte do próprio carro. E é algo que também merece reparos do ADAC: “Parece totalmente paradoxal que usar smartphones nos carros seja (e bem) proibido, enquanto operar enormes tablets – que é essencialmente o que são estes ecrãs – é permitido“.
E as críticas continuam: “Tudo se torna ainda mais absurdo quando, em particular os modelos chineses, dizem ao condutor para se concentrarem na estrada quando ‘só’ querem operar o carro”.
Questiona o ADAC: “Para alguns fabricantes, considerações de design e custos parecem ter prioridade. Caso contrário, como se pode explicar o facto de, por vezes, não existirem botões físicos para ajustar os espelhos e o volante, forçando os condutores a navegar por menus no ecrã para estas funções? E qual é o sentido de superfícies sensíveis ao toque no volante se não é possível operá-las por sensação, falhando o sítio frequentemente?”.
Tempos de reação alarmantes
Michael Praxenthaler, psicólogo de trânsito, disse em abril passado no site da seguradora Allianz: “Num estudo realizado no Allianz Center for Technology, descobrimos que tecnologias modernas nos carros aumentam significativamente a distração. O risco de acidente devido ao uso de computadores a bordo aumenta cerca de 50 por cento. […]. Um estudo descobriu que condutores de camiões precisam de até 20 segundos para selecionar uma canção no Spotify. […]. Os resultados são preocupantes também para condutores de carros. Usar o ecrã tátil no carro aumenta o tempo de reação em 57 por cento – comparável a usar um telefone ao volante, que aumenta o tempo de reação em 46 por cento”.
As distrações, disse o especialista, podem ser várias – como olhar mais do que uma vez para o ecrã antes de aceder a determinada função ou a falta da sensibilidade que têm os controlos em ecrãs táteis face aos botões analógicos e à sua posição intuitiva no habitáculo. Os gestos para operar os ecrãs táteis também leva a mais dispersão da atenção.
O Auto ao Minuto recorda que é essencial estar sempre o mais focado possível na tarefa de condução – a prioridade máxima para o condutor. Se estiver acompanhado de um passageiro, pode deixar a operação do ecrã central para essa pessoa. E há também modelos com comando por voz (normalmente ativado por um botão físico no volante) que dispensam a necessidade de percorrer os menus para aceder a determinadas funcionalidades.
